Furo de reportagem

25 01 2010

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Observe a capa de hoje do Estadão:

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“Eleitor pobre quer imposto menor”? Essa é digna de prêmios, juntamente com aquela do “Macaco quer banana”. Engraçado que se eu formulasse um título desses para trabalho acadêmico, tiraria uma nota baixa.





“Interesse do público”?

24 01 2010

Por Bruno Chagas

Um assunto recorrente em sala durante meus quatro anos como aluno na faculdade de jornalismo foi a discussão sobre a postura ética da imprensa na cobertura de tragédias como assassinatos e suicídios. Até que ponto é certo divulgar e mesmo colocar imagens? Lembro de quando eu tinha uns 12 anos e vi, se não me engano no Brasil Urgente, em uma daquelas reportagens exageradas, o cadáver de uma mulher sendo retirado pela polícia de um buraco. Pensei no exagero de manterem o link no ar até que tal cena fosse exibida. “Porque estão mostrando uma imagem pesada dessas?”, pensei.

Descuido da produção neste caso não passa de uma desculpa esfarrapada, uma vez que a policia estava lá para fazer exatamente isso, retirar um corpo. Não bastasse o apelo cruel da veiculação de uma “notícia” assim, era preciso estender a ponto de exibir uma imagem dessas? Eu me recordo bem do apresentador falando do descuido e se desculpando. Isso não muda, no entanto, o caráter apelativo deste perfil de programa e nem o questionamento que coisas assim trazem.

Mas o que me levou a escrever este post não foi uma lembrança de quase dez anos, muito menos alguma necessidade de “meter o pau” no “jornalismo tragédia”. Na madrugada de sexta para sábado eu assisti a uma reportagem no Jornal da Globo sobre um homem que assassinou com nove tiros a ex-mulher, uma cabeleireira, no trabalho da mesma. A câmera do local filmou tudo. Chegaram a exibir um trecho gravação: O homem chegando ao salão e apontando a arma para a mulher.

Zapeando, vi a mesma notícia sendo exibida no canal Record News. A diferença é que em vez de apenas um trecho, o VT da Record exibia a cena na íntegra – Um homem atirando friamente na ex-esposa. Imediatamente, me veio à cabeça as tais aulas que, por bom senso, já não eram novidade para mim. Qual é a razão de exibir a gravação de uma pessoa matando outra, ainda mais em um programa jornalístico que tem (ou deveria) uma postura menos “marrom” que um Cidade Alerta da vida? Se mostrar um trecho já é questionável, que dirá a coisa toda.

Eu não sou um jornalista com vivência profunda na área. Sou só um recém formado com sonhos utópicos e incertezas, que precisa ainda comer muito, mas muito, feijão com arroz. Mas tenho certeza que a função do jornalismo (e aí é preciso pegar a visão romântica mesmo) é informar população de modo a prestar um serviço público que contribua com o senso crítico, conscientização e atenda ao próprio direito à notícia. Mas isso passa, evidentemente, por preceitos éticos calcados no respeito e no bom senso. Onde estão estes preceitos em exibir a imagem de uma pessoa assassinada ou de um marido disparando contra a própria mulher pelo motivo imbecil que for?

A discussão sobre isso vai longe, mas posso afirmar com certeza que “bom jornalismo” não se encaixa em situações como esta do vídeo. Ao mesmo tempo, pode ser fútil ou inútil (escolha à vontade) questionar tais coisas, visto que parecem estar banalizadas. Eu prefiro, de qualquer modo, continuar com minha visão romântica enquanto ela puder durar e tentar não repetir os erros que vejo.





Filme: A Montanha dos Sete Abutres

17 12 2009

Por Bruno Chagas

Jornalismo não é uma profissão que se aprende somente nas salas de aula. A evolução no ramo requer obrigatoriamente a vivência, a observação e a análise. Acompanhar o dia-a-dia da notícia é primordial, e certos casos em particular mostram como a atuação da imprensa pode ser brilhante ou destrutiva.

O cinema nos trouxe produções que se tornaram verdadeiras obras-primas sobre o jornalismo,  ilustrando a rotina, conflitos éticos e mesmo a falta de ética. E é nesta falta de ética e dos males que ela pode causar que se sustenta o filme A Montanha dos Sete Abutres (A Ace in the Hole/The Big Carnival), de 1951, estrelado por Kirk Douglas e com direção de Billy Wilder, que mostra como a imprensa pode ser irresponsável e chegar de fato a destruir a vida de uma pessoa.

Douglas interpreta o jornalista Charles “Chuck” Tatum, um profissional experiente que já passou por diversos jornais, mas por más condutas pessoais é despedido de todos eles. Tatum acaba indo para um pequena cidade e consegue emprego em um modesto jornal local, esperando ficar pouco tempo até conseguir uma grande matéria que o destaque novamente. Passa-se um ano e ele ainda está no mesmo jornal, totalmente frustrado pela vida pacata do interior. É quando ao sair para cobertura de um evento sem importância ele encontra a oportunidade de auto-promoção que tanto aguardava.

Leo Minosa (Richard Benedict) procurava artefatos indígenas na caverna de uma montanha conhecida como A Montanha dos Sete Abutres, tida como amaldiçoada, quando ficou preso em um desabamento. Tatum vê aí um grande trunfo, veiculando a história de modo dramático e sensacionalista. Minosa poderia ter sido retirado da caverna rapidamente, mas o personagem de Kirk Douglas consegue fazer com que o resgate seja realizado do modo mais difícil e demorado.

Tatum brinca, manipula e faz pactos com autoridades e até mesmo com a esposa indiferente do pobre Minosa, que vê a condição do marido como uma forma de lucrar em seu restaurante. Como em muitos casos que geram comoção, a irresponsabilidade de Tatum faz com que um número gigantesco de curiosos se instale próximo à montanha, transformado o local e o calvário de um homem imóvel embaixo de escombro em uma grande atração com direito a roda-gigante. Chuck Tatum paga caro por sua ganância, levando o caso à pior conseqüência possível e ao seu descrédito e fracasso como jornalista.

A atuação mesquinha e desumana da imprensa representada no filme não é pura ficção. Muitos casos conhecidos levaram seus protagonistas, massacrados pela imprensa das mais diversas formas, a uma vida arruinada. A Montanha dos Sete Abrutes é um filme brilhantemente executado, com um bom elenco, que foi produzido sem preocupação com a repercussão que geraria, tanto que foi duramente atacado pela crítica e foi pífio em bilheteria. Para jornalistas e amantes do bom cinema, no entanto, o longa-metragem é obrigatório, crítico e contestador.





O novo problema da Daslu

22 04 2009
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por Bruno Chagas

Post rápido e indolor. Talvez.

Observe a manchete e o “lead” da matéria da Exame abaixo:

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Vila Olímpia vira sonho de consumo dos próprios shoppings

Até 2010, três shopping centers voltados para o público de alta renda vão inaugurar 504 lojas a poucos metros da Daslu

A condenação a 94 anos e meio de prisão por importação fraudulenta de produtos está longe de ser o único problema para Eliana Tranchesi, a dona da Daslu. Considerada um dos maiores templos do luxo no país, a Daslu terá de enfrentar a partir dos próximos meses uma concorrência feroz pelos consumidores endinheirados.

Até 2010, a inauguração de dois shopping centers e a ampliação de um terceiro empreendimento devem transformar a região da Vila Olímpia, onde está a Daslu, em uma espécie de “Boca do Luxo” da cidade de São Paulo. Os três shoppings contarão com 504 novas lojas na região – ou cerca da metade do total de lojas que serão abertas em shoppings na capital paulista até o final do próximo ano. (…)

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Uma pergunta:  Isto é contextualização? Não que eu esteja defendendo a coitada da milionária sonegadora de impostos mas, o que alhos têm a ver com bugalhos? Se a intenção era falar sobre a economia da Vila Olímpia, não havia necessidade de abrir a matéria com um comentário de mau gosto e ainda por cima totalmente dispensável no texto.

Elimine o primeiro parágrafo, esqueça que ele existiu e leia de novo a partir do segundo.  Fez alguma diferença excluir aquele pedaço para o objetivo/pauta e para a matéria em si? Nenhum. O lead mesmo era este segundo parágrafo (um pouco mal escrito, por sinal). Contextualizar é uma coisa, falta de tato é outra. E, pelo que eu saiba, um “nariz de cera” destes não faz bem para um texto jornalístico e não é recomendado em nenhum manual.





Participação da imprensa interferiu no desfecho do caso de Santo André

3 11 2008

por Bruno Chagas

Segundo especialistas, a atuação dos jornalistas minou a autoridade policial e deixou o seqüestrador confiante

A semana iniciada no dia 12 de outubro, dentro do contexto “comum” de rotina vivida pela maioria da população, poderia ser definida como atípica. Os bancos fechados por conta de uma greve de funcionários. Um conflito entre duas frentes policiais que teve repercussão internacional. “Police vs Police”, diziam jornais estrangeiros. O segundo turno das eleições municipais estava em pleno desenrolar. Mas algo acabou por chamar a atenção do país para uma outra direção. Olhos se voltaram para Santo André, na Grande São Paulo. O caso protagonizado pelo jovem Lindemberg Fernandes Alves, 22, no cárcere privado da ex-namorada deste e de três amigos dela, todos com 15 anos, teve repercussão nacional e serve como ponto de análise tanto para a atuação policial durante a semana do seqüestro quanto para a cobertura da imprensa, sendo que a última foi amplamente questionada e criticada por uma suposta intervenção durante as negociações e uma campanha exaustiva estabelecida em torno do prédio.

Durante o seqüestro, que durou cinco dias, três emissoras de televisão tiveram contato com Lindemberg Alves por telefone. A primeira foi a Rede TV: Na quarta-feira, dia 15, a jornalista e apresentadora Sônia Abrão conversou com o jovem no programa de variedades “A Tarde é Sua”. A apresentadora agiu entre o que seria uma entrevista e uma negociação. Posteriormente, Rede Globo e Record também tiveram suas entrevistas via telefone. A assessoria da polícia militar chegou a declarar que as entrevistas atrapalharam as negociações. Entrevistas estas que foram duramente criticadas por diverso profissionais do ramo de comunicação. O argumento para reprovação seria que os contatos e exposição exagerada da figura de Alves e do caso deram ao seqüestrador uma sensação de controle da situação. Sônia Abrão argumentou em seu programa que só fez seu trabalho e que os 20 anos que tem de carreira, grande parte dedicado à área de variedades, ajudaram-na a levar a entrevista para o rumo certo, tendo inclusive acalmando o seqüestrador.

O advogado Paulo Cremonesi, Diretor Geral da Escola de Advocacia Criminal da ACRIMESP (Associação dos Advogados Criminalistas do Estado de São Paulo), acredita que situações como o contato da imprensa com Alves no decorrer do crime revelaram “um descontrole absoluto da unidade policial (Gate, Grupo de Ações Táticas Especiais)”. Segundo o advogado, apesar de reprováveis as intervenções de veículos de comunicação não foram nenhuma infração. “Até que ponto você pode culpar juridicamente a Sônia Abrão pelo que ela fez? Moralmente houve uma irresponsabilidade tremenda, mas do ponto de vista jurídico jamais se poderá responsabilizá-la por algum crime cometido”, analisa, completando não houve apologia ao crime, algo passível de punição pela justiça.

Cremonesi aponta que conversas por telefone ao vivo com Lindemberg Alves durante o seqüestro não deveriam ter sido permitidas pelo Gate, pois demonstraram uma incapacidade de ser o condutor das negociações e que realmente concederam “poder” para o criminoso. “Numa situação como essa a policia possui três premissas básicas: Ter o controle absoluto da situação, agir com um tempo determinado e desgastar o seqüestrador por todos os meios possíveis”, diz. Ele complementa que a “flexibilidade, se adotada em um primeiro momento, acaba com a linha profissional de atuação”.

Roberto Parentoni, advogado criminalista presidente do IDECRIM (Instituto de Direito e Ensino Criminal) concorda com a falta de pulso do Gate na administração do caso. Critico, Parentoni afirma que de fato a interação de programas jornalísticos evidenciou descontrole no decorrer do crime. “Quem conduziu o seqüestro não foi o Gate, foi a imprensa”, afirma. Sobre a cobertura realizada, Parentoni questiona se houve prioridade no que seria realmente relevante de ser noticiado. “Que interesse público há em seqüestro?”, indaga. Expõe sua opinião que se realmente havia algo a ser divulgado, deveria ter sido feito após o desfecho do caso, de modo a não prejudicar ou espetacularizar o caso.

Cinco dias de calvário

A situação passada pela namorada de Lindemberg Alves e a amiga desta é tida como o caso de cárcere privado mais longo já registrado no Estado de São Paulo. Foram cerca de 100 horas de impasse e cerco da polícia até o desfecho trágico. Segundo dados da polícia, o registro anterior ocorreu em março de 2007, quando um assaltante manteve por 56 horas uma mãe os três filhos desta com reféns em Campinas.

No dia 13 deste mês Alves foi armado até a residência da ex-namorada tentar reatar a força um conturbado namoro que durou três anos. No apartamento de um conjunto habitacional em bairro violento de Santo André, a menina realizava um trabalho de escola com a amiga e mais dois rapazes da mesma sala. Os garotos foram libertados no mesmo dia e a amiga da jovem após 33 horas, mas esta acabou voltando na quinta-feira para o cárcere como parte das negociações.

O seqüestro teve seu desfecho na sexta-feira (17). Após um suposto disparo realizado por Alves dentro do apartamento, a polícia invadiu o local e rendeu o jovem, mas não antes de ele realizar disparos contra as duas garotas. A ex-namorada de Alves levou um tiro na cabeça e outro na virilha, tendo morte cerebral confirmada horas depois de ter sido socorrida. A amiga dela levou um tiro no rosto, mas passou por cirurgia e já teve alta. Lindemberg Fernandes Alves responderá por denúncias que envolvem homicídio duplamente qualificado, tentativa de homicídio duplamente qualificado, tentativa de homicídio qualificado e cárcere privado.





Jornalismo clone?

23 09 2008

Por Bruno Chagas

Saiu no blog (em inglês) Innovations in Newspaper uma notícia que chamava a atenção para uma nova “tendência” dentro das publicações  (que também se aplica a nós): O “clone journalism”, ou “jornalismo clone”. O conceito refere-se a falta de originalidade dos jornais em publicar conteúdos iguais, de forma que as publicações ficam como “padronizadas” e sem diferença entre si. Um exemplo prático é o conteúdo do post do IN: Após a falência da Lehman Brothers, 45 (QUARENTA E CINCO) jornais colocaram em sua primeira página exatamente a mesma foto, de uma funcionária de LB desolada, cabisbaixa e com a mão na cabeça.

Não posso afirmar com certeza, mas tenho a impressão que vi este mesma foto em jornais aqui do Brasil. É sabido que muitas fotos que os veículos de comunicação impressa utilizam vêm de agências especializadas, imagino que a foto da moça também tenha vindo de uma. Mas 45 capas iguais é uma coincidência colossal, não acha?





Olha quem sabe do que está falando

22 09 2008

por Bruno Chagas

Checagem dos fatos é uma premissa básicas para fazer uma publicação jornalística. Tanto que isso é martelado na cabeça de qualquer um que se aventure a estudar jornalismo durante praticamente todo o curso. Quando não domina-se um assunto, a atenção para escrever sobre ele deve ser redobrada. No fim,  o que fica na mente do público muitas vezes não é a informação bem transmitida, mas o erro que foi motivo de piada.

Falta de base para informar e a voracidade por um furo de reportagem foram responsáveis, por exemplo, pelo equívoco gigantesco do Jornal Nacional na cobertura ocorrida minutos após a tragédia da colisão do vôo 3054 da Tam, cheio de passageiros contra um prédio da empresa aérea:

Eles tinham as imagens mas não tinham informação. O âncora começou a vomitar achismos. O vídeo foi parar, como percebe-se acima, no Youtube e aquele episódio não foi muito feliz para o JN.

Há dois meses, o banqueiro e, com grande eufemismo, mal-caráter de carteirinha Daniel Dantas foi preso (Em seguida solto. E preso de novo. E solto) por conta das investigações da Operação Satiagraha (a PF e seus incríveis nomes de operações… Criatividade e bom gosto sempre fascinantes). Com uma falta de checagem com menos justificativa,  o Diário do Sul, jornal baiano, publicou a seguinte capa:

Está vendo a seta vermelha? Ela aponta para a fotografia Daniel Dantas, mais precisamente um dos primeiros resultados quando se digita o nome do indivíduo no sistema de busca do Google Imagens. O problema é que este é o Daniel Dantas ATOR global, E NÃO o Daniel Dantas banqueiro, ex-dono do Opportunity que foi preso na operação com nome esquisito (culto, mas esquisito) do Polícia Federal. O editor da publicação alegou que foi um erro de seleção já na montagem do jornal. Tá bom, essa passa. Eles deveriam contratar um diagramador mais esperto e ver como ficou o jornal pronto. Mas são nossos compatriotas, façamos vista grossa.

Acontece que esta troca de Daniéis foi reincidente. Acredito que nesta segunda vez foi falta de checagem editorial mesmo. Afinal, nosso amigos italianos não têm obrigação nenhuma de saber que Daniel é qual, não? A relação dele com uma certa empresa de telefonia de lá deve ser nova. O erro, idêntico ao do Diário do Sul, foi do La Stampa, jornal, como já dito, da Itália. A publicação, além de não saber qual é o banqueiro Dantas, também sucumbiu a googlismo. A foto usada está bem ao lado daquela que o periódico tupiniquim pegou.

Mas… já remoeram sobre estes fatos bem antes de mim. Para terminar então, devo mostra algo mais recente: O estadunidense Boston Globe não vê muita diferença em qual país latino é citado ou onde em suas capas. Afinal, todo mundo fala espanhol aqui embaixo mesmo… O Globe acertou no texto mas errou na chamada. Lá eles também não devem ver o jornal pronto.





“Zé Bob” é ilusão, meu povo!

6 09 2008

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por Thiago Borges

Hoje, cheguei mais cedo em casa a tempo de acompanhar as notícias do Jornal Nacional, tirar uma soneca durante o horário eleitoral e ver um pouco da controversa novela A Favorita – cheia de suspense, tramas obscuras, mocinhas que viram vilãs e vice-versa. Mas o “engraçado” é se ver interpretado (ou não) em uma novela, esse símbolo cultural brasileiro que reflete a nossa realidade (reflete?). Agora consigo entender por que enfermeiras, policiais, modistas e camelôs criticam novelas… Quando tem um personagem camelô, ele sempre está de bom humor, trabalhando de sol a sol e com um largo sorriso no lábio – como se a vida dele fosse fácil. É a mesma coisa com o tal Zé Bob. Ele é o jornalista da novela, um mocinho como qualquer outro que tem como missão livrar o bem das garras do mal sem se deixar seduzir. Mas não é bem assim na vida real, caro leitor. Você, que deve estar aí pensando no próximo capítulo da novela das oito… Você, leitora inocente, que sonha em ter um jornalista como Zé Bob para te salvar… Você, internauta adolescente, que quer seguir a carreira de jornalista porque achou a profissão um tanto quanto cheia de adrenalina… Vamos à realidade!

1° – Super jornalista? Impossível! Por mais que as redações estejam defasadas e os funcionários de determinado veículo acabem acumulando funções, não dá para uma única possível cobrir todas as áreas, todos os assuntos de interesse público. Zé Bob, por exemplo, cobre política num dia e feira das tulipas em outro (além de tirar fotos, é claro)

2° – Incansável? Outro erro aí! Pode tomar café à vontade, cheirar cocaína, ter uma pilha de coisas para fazer. Sete matérias pra escrever… Uma hora o cara vai se cansar e ter de parar recuperar a energia perdida. Zé Bob ainda não apareceu dormindo nessa trama.

3° – Sortudo? Ao contrário do nosso herói da dramaturgia, que tem a bruxa boazinha do Castelo Rá-Tim-Bum como editora-chefe, a realidade é bem diferente. Na maioria das vezes (salvo raras exceções), em especial em jornais diários, repórteres são tratados aos berros por seus senhores.

4° – Catador? Mesmo com todo o trabalho do mundo para fazer, Zé Bob encontra uma brechinha entre uma cobertura e outra para cortejar as beldades da novela. Fala sério!

5° – Cadê o distanciamento do fato? Se fosse real, Zé Bob estaria cometendo um grave erro profissional por ter se envolvido com uma de suas fontes – a Donatela. Cadê a imparcialidade, oras?

E você, o que acha de tudo isso?





Ô, dó!

6 09 2008

por Thiago Borges
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Não vou falar exatamente de jornalismo agora, mas de algo totalmente ligado ao jornalismo: assessoria de imprensa. Ô, dó! Como dizem por aí, ninguém entra na faculdade pensando em ser assessor de imprensa. Pelamordedeus! Porém, muitos vão parar nessa área porque é a única oportunidade que surge no mercado.

As empresas investem muito dinheiro em assessoria para depois economizar com propaganda. Vale muito mais ter seu nome estampado em uma matéria de jornal do que em um anúncio. A credibilidade é maior pois, no subconsciente do leitor, existe a idéia de que se tal empresa está ali é porque foi digna de notícia. Entretanto, muitas vezes a pauta foi plantada pelo assessor de imprensa. Algumas vezes eles até acertam, mas são poucos que conseguem.

O assessor de imprensa é quem faz o meio de campo entre a empresa e os jornalistas. Seu trabalho é facilitar o acesso da imprensa aos executivos de determinada empresa, mas muitas vezes acontece exatamente o contrário. Eles são contratados para dizer que aquilo que seus clientes querem que saia na imprensa. Se perceberem que determinada matéria pode ser prejudicial, pode esquecer! A pauta caiu!

Mas há de se reconhecer: vida de assessor não é fácil. Apesar de ter um salário médio maior que o de jornalista, os assessores têm de conviver com a idéia de que não estão atrás da verdade, mas sim do lucro para a empresa para a qual trabalham. Eles têm clientes, contas e metas para atingir. E imagine a pressão para atingir essas metas! É muito mais fácil para o assessor do banco do Brasil ou da FGV emplacar uma pauta do que para o cara que presta assessoria para uma empresa que aluga móveis de escritórios – sim, isso existe e eu recebo vários releases do tipo toda a semana.

Pois bem: imagine ter de escrever sobre doces ou narguilê, por exemplo, porque isso é a área de atuação de seu cliente. Depois, mandar para uma imensa lista de veículos de comunicação. Depois disso, ter de ligar para todos esses veículos para ver se receberam e, quem sabe, convencer o repórter a publicar a notícia. E, por último, torcer para que saia alguma coisa. Fora que você tem de acreditar no que está vendendo, pois se tentar enganar o jornalista do outro lado da linha, estará enganando a si mesmo. Isso por acaso é vida? Prefiro ganhar menos, trabalhar mais, mas estar convencido de que o que faço é [um pouco, só um pouquinho] mais limpo e mais próximo à verdade.





Profissão: Zé-Povinho

3 09 2008

por Thiago Borges

“Então, você quer aparecer na TV?”. Essa foi a primeira reação de muitos que me ouviram dizer que queria fazer Jornalismo, antes de entrar na faculdade, e até hoje repetem isso. Sempre respondo: “Não, jornalista não é só aquele que aparece na televisão”.

“Um dia, vou te ver no Jornal Nacional”. Foi o que outros me disseram e ainda me dizem. Ou então, o clássico: “Jornalista? Que chique! Vai ganhar muito dinheiro”. Claro, claro…

Minha avó, em particular, ao saber que tinha optado por essa profissão, me deu conselhos: “Meu filho, mas é muito perigoso. Ficar entrando correndo na favela, no meio de tiro… Por que você não escolheu administração?”. Só para explicar: ela era uma telespectadora fanática do falecido Cidade Alerta. Hoje, vê o Datena na Band.

“Mas você não é falante. Como pode ser jornalista?”, comentaram, questionando meu silêncio.

São engraçados (para não dizer deprimentes) os estereótipos criados sobre a profissão “jornalista”. Tenho ouvido tudo isso e muitas outras coisas há três anos e, com tudo que vivi nesse tempo, posso garantir que não é bem assim.

Por ano, são formados em média oito mil jornalistas. Se todos que entraram na profissão tinham o sonho de aparecer na TV ou, mais difícil, apresentar o JN, o desemprego na área estaria muito maior.

Outra coisa: jornalista não ganha muito dinheiro – exceção de algumas celebridades da notícia, como o casal JN, Ana Paula Padrão, Carlos Nascimento, jornalistas globais e da Record. Nosso piso não chega a cinco salários mínimos, portanto somos pobres e endividados como você! Portanto, nada de seqüestros por favor.

Sobre o comentário de minha avó: não, nem todo jornalista está arriscado a levar tiro. A exceção cabe, logicamente, àqueles bravos que vão cobrir guerras ou, num panorama local, a cidade do Rio de Janeiro. De resto, todos estamos vulneráveis à violência urbana.

Mais: “ser jornalista” não é sinônimo de “ser falante”. Trabalhamos na área da Comunicação, sim, mas a fala não é a única maneira de se comunicar. O jornalista, acima de tudo, precisa informar seu público, verificar dados e fontes e dar subsídios para que a sociedade possa por si só buscar a verdade. Falar pelos cotovelos ajuda, mas não garante todo o processo. Aqui também vale aquele ditado: “Falar menos, ouvir mais”.

É chato ver como boa parte das pessoas faz imagens erradas do nosso trabalho e não dá importância ao serviço prestado. Tudo bem que somos estressados, bebemos café várias vezes ao dia, perdemos noites de sono… São os ossos do ofício. Mas somos normais, apesar de tudo. Onde estamos errando, afinal?

Não se discute o que as informações veiculadas e muito menos os deslizes éticos cometidos. Discute-se mais o que vai acontecer na novela das oito do que em Brasília. Não é a toa que 40% das pessoas que vêem o JN dizem boa noite ao William Bonner e à Fátima Bernardes.

Para finalizar, um comentário que ouvi semana passada enquanto fazia uma reportagem para o jornal da faculdade. Na ocasião, anotava o que uma aluna de Enfermagem dizia sobre seu curso. Uma amiga dela ficou surpresa com a rapidez com que eu escrevia, no que a outra soltou: “Ele já tá acostumado. Esses Zé-Povinhos são tudo assim mesmo”. Obrigado.

originalmente postado em SURTOS E SEDATIVOS