Profissão: Zé-Povinho

3 09 2008

por Thiago Borges

“Então, você quer aparecer na TV?”. Essa foi a primeira reação de muitos que me ouviram dizer que queria fazer Jornalismo, antes de entrar na faculdade, e até hoje repetem isso. Sempre respondo: “Não, jornalista não é só aquele que aparece na televisão”.

“Um dia, vou te ver no Jornal Nacional”. Foi o que outros me disseram e ainda me dizem. Ou então, o clássico: “Jornalista? Que chique! Vai ganhar muito dinheiro”. Claro, claro…

Minha avó, em particular, ao saber que tinha optado por essa profissão, me deu conselhos: “Meu filho, mas é muito perigoso. Ficar entrando correndo na favela, no meio de tiro… Por que você não escolheu administração?”. Só para explicar: ela era uma telespectadora fanática do falecido Cidade Alerta. Hoje, vê o Datena na Band.

“Mas você não é falante. Como pode ser jornalista?”, comentaram, questionando meu silêncio.

São engraçados (para não dizer deprimentes) os estereótipos criados sobre a profissão “jornalista”. Tenho ouvido tudo isso e muitas outras coisas há três anos e, com tudo que vivi nesse tempo, posso garantir que não é bem assim.

Por ano, são formados em média oito mil jornalistas. Se todos que entraram na profissão tinham o sonho de aparecer na TV ou, mais difícil, apresentar o JN, o desemprego na área estaria muito maior.

Outra coisa: jornalista não ganha muito dinheiro – exceção de algumas celebridades da notícia, como o casal JN, Ana Paula Padrão, Carlos Nascimento, jornalistas globais e da Record. Nosso piso não chega a cinco salários mínimos, portanto somos pobres e endividados como você! Portanto, nada de seqüestros por favor.

Sobre o comentário de minha avó: não, nem todo jornalista está arriscado a levar tiro. A exceção cabe, logicamente, àqueles bravos que vão cobrir guerras ou, num panorama local, a cidade do Rio de Janeiro. De resto, todos estamos vulneráveis à violência urbana.

Mais: “ser jornalista” não é sinônimo de “ser falante”. Trabalhamos na área da Comunicação, sim, mas a fala não é a única maneira de se comunicar. O jornalista, acima de tudo, precisa informar seu público, verificar dados e fontes e dar subsídios para que a sociedade possa por si só buscar a verdade. Falar pelos cotovelos ajuda, mas não garante todo o processo. Aqui também vale aquele ditado: “Falar menos, ouvir mais”.

É chato ver como boa parte das pessoas faz imagens erradas do nosso trabalho e não dá importância ao serviço prestado. Tudo bem que somos estressados, bebemos café várias vezes ao dia, perdemos noites de sono… São os ossos do ofício. Mas somos normais, apesar de tudo. Onde estamos errando, afinal?

Não se discute o que as informações veiculadas e muito menos os deslizes éticos cometidos. Discute-se mais o que vai acontecer na novela das oito do que em Brasília. Não é a toa que 40% das pessoas que vêem o JN dizem boa noite ao William Bonner e à Fátima Bernardes.

Para finalizar, um comentário que ouvi semana passada enquanto fazia uma reportagem para o jornal da faculdade. Na ocasião, anotava o que uma aluna de Enfermagem dizia sobre seu curso. Uma amiga dela ficou surpresa com a rapidez com que eu escrevia, no que a outra soltou: “Ele já tá acostumado. Esses Zé-Povinhos são tudo assim mesmo”. Obrigado.

originalmente postado em SURTOS E SEDATIVOS


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2 respostas

4 09 2008
Bruno Chagas

Verídico.

É impressionante o números de vezes que quando eu falo que faço jornalismo me dizem “vou te ver na TV, hein?” ou “bem que você tem cara de Willian Bonner…” e eu tenho que pacientemente explicar que jornalista não é só apresentador de telejornal e que este nem necessariamente precisa ser jornalista. Vide a Analice Nicolau, que resume sua carreira (que carreira, cara pálida?) jornalística a um par de pernas. Exemplos não faltam.

Queria saber quantas vezes eu vou ter que explicar que não vou morrer em um tiroteio. Pelo menos, não cobrindo um. Sim, jornalismo pode ser uma profissão perigosa dependendo do que está sendo investigado ou acompanhado e como. Mas não é minha intenção seguir por este caminho, apesar de achar interessante e extremamente válido.

Dizer que faz jornalismo é estar sujeito aos comentários baseados em esteriótipos que a maiorias pessoas tem.

Mas é isso aí. Como dizem, são ossos do ofício.

9 09 2008
Bruno Chagas

Comentário postado no Brasil Wiki!:

08/09/2008 – SPOCK – São paulo
As idéias estereotipadas que se fazem dos artistas, modelos, jornalistas são de que todos são famosos, ricos, tem vida boa e “glamourosa”. Ao menos é um estereótipo positivo. (Já ouvi, no metrô, um barbudo mal vestido dizendo que “os cara engravatadu são tudu viadu”. Portanto… siga sua carreira e deixe o zé povinho “falano as coisa” como entendem. A vida é assim.

http://www.brasilwiki.com.br/noticia.php?id_noticia=6936

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