Participação da imprensa interferiu no desfecho do caso de Santo André

3 11 2008

por Bruno Chagas

Segundo especialistas, a atuação dos jornalistas minou a autoridade policial e deixou o seqüestrador confiante

A semana iniciada no dia 12 de outubro, dentro do contexto “comum” de rotina vivida pela maioria da população, poderia ser definida como atípica. Os bancos fechados por conta de uma greve de funcionários. Um conflito entre duas frentes policiais que teve repercussão internacional. “Police vs Police”, diziam jornais estrangeiros. O segundo turno das eleições municipais estava em pleno desenrolar. Mas algo acabou por chamar a atenção do país para uma outra direção. Olhos se voltaram para Santo André, na Grande São Paulo. O caso protagonizado pelo jovem Lindemberg Fernandes Alves, 22, no cárcere privado da ex-namorada deste e de três amigos dela, todos com 15 anos, teve repercussão nacional e serve como ponto de análise tanto para a atuação policial durante a semana do seqüestro quanto para a cobertura da imprensa, sendo que a última foi amplamente questionada e criticada por uma suposta intervenção durante as negociações e uma campanha exaustiva estabelecida em torno do prédio.

Durante o seqüestro, que durou cinco dias, três emissoras de televisão tiveram contato com Lindemberg Alves por telefone. A primeira foi a Rede TV: Na quarta-feira, dia 15, a jornalista e apresentadora Sônia Abrão conversou com o jovem no programa de variedades “A Tarde é Sua”. A apresentadora agiu entre o que seria uma entrevista e uma negociação. Posteriormente, Rede Globo e Record também tiveram suas entrevistas via telefone. A assessoria da polícia militar chegou a declarar que as entrevistas atrapalharam as negociações. Entrevistas estas que foram duramente criticadas por diverso profissionais do ramo de comunicação. O argumento para reprovação seria que os contatos e exposição exagerada da figura de Alves e do caso deram ao seqüestrador uma sensação de controle da situação. Sônia Abrão argumentou em seu programa que só fez seu trabalho e que os 20 anos que tem de carreira, grande parte dedicado à área de variedades, ajudaram-na a levar a entrevista para o rumo certo, tendo inclusive acalmando o seqüestrador.

O advogado Paulo Cremonesi, Diretor Geral da Escola de Advocacia Criminal da ACRIMESP (Associação dos Advogados Criminalistas do Estado de São Paulo), acredita que situações como o contato da imprensa com Alves no decorrer do crime revelaram “um descontrole absoluto da unidade policial (Gate, Grupo de Ações Táticas Especiais)”. Segundo o advogado, apesar de reprováveis as intervenções de veículos de comunicação não foram nenhuma infração. “Até que ponto você pode culpar juridicamente a Sônia Abrão pelo que ela fez? Moralmente houve uma irresponsabilidade tremenda, mas do ponto de vista jurídico jamais se poderá responsabilizá-la por algum crime cometido”, analisa, completando não houve apologia ao crime, algo passível de punição pela justiça.

Cremonesi aponta que conversas por telefone ao vivo com Lindemberg Alves durante o seqüestro não deveriam ter sido permitidas pelo Gate, pois demonstraram uma incapacidade de ser o condutor das negociações e que realmente concederam “poder” para o criminoso. “Numa situação como essa a policia possui três premissas básicas: Ter o controle absoluto da situação, agir com um tempo determinado e desgastar o seqüestrador por todos os meios possíveis”, diz. Ele complementa que a “flexibilidade, se adotada em um primeiro momento, acaba com a linha profissional de atuação”.

Roberto Parentoni, advogado criminalista presidente do IDECRIM (Instituto de Direito e Ensino Criminal) concorda com a falta de pulso do Gate na administração do caso. Critico, Parentoni afirma que de fato a interação de programas jornalísticos evidenciou descontrole no decorrer do crime. “Quem conduziu o seqüestro não foi o Gate, foi a imprensa”, afirma. Sobre a cobertura realizada, Parentoni questiona se houve prioridade no que seria realmente relevante de ser noticiado. “Que interesse público há em seqüestro?”, indaga. Expõe sua opinião que se realmente havia algo a ser divulgado, deveria ter sido feito após o desfecho do caso, de modo a não prejudicar ou espetacularizar o caso.

Cinco dias de calvário

A situação passada pela namorada de Lindemberg Alves e a amiga desta é tida como o caso de cárcere privado mais longo já registrado no Estado de São Paulo. Foram cerca de 100 horas de impasse e cerco da polícia até o desfecho trágico. Segundo dados da polícia, o registro anterior ocorreu em março de 2007, quando um assaltante manteve por 56 horas uma mãe os três filhos desta com reféns em Campinas.

No dia 13 deste mês Alves foi armado até a residência da ex-namorada tentar reatar a força um conturbado namoro que durou três anos. No apartamento de um conjunto habitacional em bairro violento de Santo André, a menina realizava um trabalho de escola com a amiga e mais dois rapazes da mesma sala. Os garotos foram libertados no mesmo dia e a amiga da jovem após 33 horas, mas esta acabou voltando na quinta-feira para o cárcere como parte das negociações.

O seqüestro teve seu desfecho na sexta-feira (17). Após um suposto disparo realizado por Alves dentro do apartamento, a polícia invadiu o local e rendeu o jovem, mas não antes de ele realizar disparos contra as duas garotas. A ex-namorada de Alves levou um tiro na cabeça e outro na virilha, tendo morte cerebral confirmada horas depois de ter sido socorrida. A amiga dela levou um tiro no rosto, mas passou por cirurgia e já teve alta. Lindemberg Fernandes Alves responderá por denúncias que envolvem homicídio duplamente qualificado, tentativa de homicídio duplamente qualificado, tentativa de homicídio qualificado e cárcere privado.


Ações

Informações

3 respostas

5 11 2008
Paulo Cremonesi

Não posso deixar de registrar meu sincero elogio ao autor da matéria que, mesmo contendo minha opinião sobre o tema, não me torna suspeito para dizer que reflete a realidade dos fatos, em especial ao que eu disse e confirmo. Brilhante o Jornalista que a escreveu de forma séria, inteligente e bastante esclarecedora. Parabéns

5 11 2008
Roberto B. Parentoni

Parabéns pela matéria.

Abraços Fraternais.

5 11 2008
Silvia Celani

Esta matéria é um bom exemplo do quanto a imprensa tem se tornado parcial e se utiliza de fatos que fogem dos padrões para alavancar audiência e a venda de exemplares nas bancas. Parabéns Bruno!

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