“Zé Bob” é ilusão, meu povo!

6 09 2008

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por Thiago Borges

Hoje, cheguei mais cedo em casa a tempo de acompanhar as notícias do Jornal Nacional, tirar uma soneca durante o horário eleitoral e ver um pouco da controversa novela A Favorita – cheia de suspense, tramas obscuras, mocinhas que viram vilãs e vice-versa. Mas o “engraçado” é se ver interpretado (ou não) em uma novela, esse símbolo cultural brasileiro que reflete a nossa realidade (reflete?). Agora consigo entender por que enfermeiras, policiais, modistas e camelôs criticam novelas… Quando tem um personagem camelô, ele sempre está de bom humor, trabalhando de sol a sol e com um largo sorriso no lábio – como se a vida dele fosse fácil. É a mesma coisa com o tal Zé Bob. Ele é o jornalista da novela, um mocinho como qualquer outro que tem como missão livrar o bem das garras do mal sem se deixar seduzir. Mas não é bem assim na vida real, caro leitor. Você, que deve estar aí pensando no próximo capítulo da novela das oito… Você, leitora inocente, que sonha em ter um jornalista como Zé Bob para te salvar… Você, internauta adolescente, que quer seguir a carreira de jornalista porque achou a profissão um tanto quanto cheia de adrenalina… Vamos à realidade!

1° – Super jornalista? Impossível! Por mais que as redações estejam defasadas e os funcionários de determinado veículo acabem acumulando funções, não dá para uma única possível cobrir todas as áreas, todos os assuntos de interesse público. Zé Bob, por exemplo, cobre política num dia e feira das tulipas em outro (além de tirar fotos, é claro)

2° – Incansável? Outro erro aí! Pode tomar café à vontade, cheirar cocaína, ter uma pilha de coisas para fazer. Sete matérias pra escrever… Uma hora o cara vai se cansar e ter de parar recuperar a energia perdida. Zé Bob ainda não apareceu dormindo nessa trama.

3° – Sortudo? Ao contrário do nosso herói da dramaturgia, que tem a bruxa boazinha do Castelo Rá-Tim-Bum como editora-chefe, a realidade é bem diferente. Na maioria das vezes (salvo raras exceções), em especial em jornais diários, repórteres são tratados aos berros por seus senhores.

4° – Catador? Mesmo com todo o trabalho do mundo para fazer, Zé Bob encontra uma brechinha entre uma cobertura e outra para cortejar as beldades da novela. Fala sério!

5° – Cadê o distanciamento do fato? Se fosse real, Zé Bob estaria cometendo um grave erro profissional por ter se envolvido com uma de suas fontes – a Donatela. Cadê a imparcialidade, oras?

E você, o que acha de tudo isso?





Ô, dó!

6 09 2008

por Thiago Borges
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Não vou falar exatamente de jornalismo agora, mas de algo totalmente ligado ao jornalismo: assessoria de imprensa. Ô, dó! Como dizem por aí, ninguém entra na faculdade pensando em ser assessor de imprensa. Pelamordedeus! Porém, muitos vão parar nessa área porque é a única oportunidade que surge no mercado.

As empresas investem muito dinheiro em assessoria para depois economizar com propaganda. Vale muito mais ter seu nome estampado em uma matéria de jornal do que em um anúncio. A credibilidade é maior pois, no subconsciente do leitor, existe a idéia de que se tal empresa está ali é porque foi digna de notícia. Entretanto, muitas vezes a pauta foi plantada pelo assessor de imprensa. Algumas vezes eles até acertam, mas são poucos que conseguem.

O assessor de imprensa é quem faz o meio de campo entre a empresa e os jornalistas. Seu trabalho é facilitar o acesso da imprensa aos executivos de determinada empresa, mas muitas vezes acontece exatamente o contrário. Eles são contratados para dizer que aquilo que seus clientes querem que saia na imprensa. Se perceberem que determinada matéria pode ser prejudicial, pode esquecer! A pauta caiu!

Mas há de se reconhecer: vida de assessor não é fácil. Apesar de ter um salário médio maior que o de jornalista, os assessores têm de conviver com a idéia de que não estão atrás da verdade, mas sim do lucro para a empresa para a qual trabalham. Eles têm clientes, contas e metas para atingir. E imagine a pressão para atingir essas metas! É muito mais fácil para o assessor do banco do Brasil ou da FGV emplacar uma pauta do que para o cara que presta assessoria para uma empresa que aluga móveis de escritórios – sim, isso existe e eu recebo vários releases do tipo toda a semana.

Pois bem: imagine ter de escrever sobre doces ou narguilê, por exemplo, porque isso é a área de atuação de seu cliente. Depois, mandar para uma imensa lista de veículos de comunicação. Depois disso, ter de ligar para todos esses veículos para ver se receberam e, quem sabe, convencer o repórter a publicar a notícia. E, por último, torcer para que saia alguma coisa. Fora que você tem de acreditar no que está vendendo, pois se tentar enganar o jornalista do outro lado da linha, estará enganando a si mesmo. Isso por acaso é vida? Prefiro ganhar menos, trabalhar mais, mas estar convencido de que o que faço é [um pouco, só um pouquinho] mais limpo e mais próximo à verdade.





Profissão: Zé-Povinho

3 09 2008

por Thiago Borges

“Então, você quer aparecer na TV?”. Essa foi a primeira reação de muitos que me ouviram dizer que queria fazer Jornalismo, antes de entrar na faculdade, e até hoje repetem isso. Sempre respondo: “Não, jornalista não é só aquele que aparece na televisão”.

“Um dia, vou te ver no Jornal Nacional”. Foi o que outros me disseram e ainda me dizem. Ou então, o clássico: “Jornalista? Que chique! Vai ganhar muito dinheiro”. Claro, claro…

Minha avó, em particular, ao saber que tinha optado por essa profissão, me deu conselhos: “Meu filho, mas é muito perigoso. Ficar entrando correndo na favela, no meio de tiro… Por que você não escolheu administração?”. Só para explicar: ela era uma telespectadora fanática do falecido Cidade Alerta. Hoje, vê o Datena na Band.

“Mas você não é falante. Como pode ser jornalista?”, comentaram, questionando meu silêncio.

São engraçados (para não dizer deprimentes) os estereótipos criados sobre a profissão “jornalista”. Tenho ouvido tudo isso e muitas outras coisas há três anos e, com tudo que vivi nesse tempo, posso garantir que não é bem assim.

Por ano, são formados em média oito mil jornalistas. Se todos que entraram na profissão tinham o sonho de aparecer na TV ou, mais difícil, apresentar o JN, o desemprego na área estaria muito maior.

Outra coisa: jornalista não ganha muito dinheiro – exceção de algumas celebridades da notícia, como o casal JN, Ana Paula Padrão, Carlos Nascimento, jornalistas globais e da Record. Nosso piso não chega a cinco salários mínimos, portanto somos pobres e endividados como você! Portanto, nada de seqüestros por favor.

Sobre o comentário de minha avó: não, nem todo jornalista está arriscado a levar tiro. A exceção cabe, logicamente, àqueles bravos que vão cobrir guerras ou, num panorama local, a cidade do Rio de Janeiro. De resto, todos estamos vulneráveis à violência urbana.

Mais: “ser jornalista” não é sinônimo de “ser falante”. Trabalhamos na área da Comunicação, sim, mas a fala não é a única maneira de se comunicar. O jornalista, acima de tudo, precisa informar seu público, verificar dados e fontes e dar subsídios para que a sociedade possa por si só buscar a verdade. Falar pelos cotovelos ajuda, mas não garante todo o processo. Aqui também vale aquele ditado: “Falar menos, ouvir mais”.

É chato ver como boa parte das pessoas faz imagens erradas do nosso trabalho e não dá importância ao serviço prestado. Tudo bem que somos estressados, bebemos café várias vezes ao dia, perdemos noites de sono… São os ossos do ofício. Mas somos normais, apesar de tudo. Onde estamos errando, afinal?

Não se discute o que as informações veiculadas e muito menos os deslizes éticos cometidos. Discute-se mais o que vai acontecer na novela das oito do que em Brasília. Não é a toa que 40% das pessoas que vêem o JN dizem boa noite ao William Bonner e à Fátima Bernardes.

Para finalizar, um comentário que ouvi semana passada enquanto fazia uma reportagem para o jornal da faculdade. Na ocasião, anotava o que uma aluna de Enfermagem dizia sobre seu curso. Uma amiga dela ficou surpresa com a rapidez com que eu escrevia, no que a outra soltou: “Ele já tá acostumado. Esses Zé-Povinhos são tudo assim mesmo”. Obrigado.

originalmente postado em SURTOS E SEDATIVOS